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Entendeu o espírito da “coisa”?

Posted in Nossa língua with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 16/09/2012 by Joe

A palavra “coisa” é um bom-bril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma idéia. Coisas da língua portuguesa.

A natureza das coisas: gramaticalmente, “coisa” pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma “coisificar”. E no Nordeste há “coisar”: “Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?”.

Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as “coisas” nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. “E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios” (Riacho Doce, José Lins do Rego). Na Paraíba e em Pernambuco, “coisa” também é cigarro de maconha.

Em Olinda, o bloco carnavalesco “Segura a Coisa” tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: “Segura a coisa com muito cuidado / Que eu chego já.” E, como em Olinda sempre há bloco-mirim equivalente ao de gente grande, há também o “Segura a Coisinha”.

Na literatura, a “coisa” é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica “O Coisa” em 1943. “A Coisa” é título de romance de Stephen King. Simone de Beauvoir escreveu “A Força das Coisas”, e Michel Foucault, “As Palavras e as Coisas”.

Em Minas Gerais, todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que lá é chamado de “a coisa”. A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: “Minha filha, pega os trem que lá vem a coisa!”.

Devido lugar: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (…)”. A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro. “Mas se ela voltar, se ela voltar / Que coisa linda / Que coisa louca.” Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas..

Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta “Alguma coisa acontece no meu coração”, de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa!).

Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim!

Coisa de cinema! “A Coisa” virou nome de filme de Hollywood, que tinha o seu “Coisa” no recente “Quarteto Fantástico”. Extraído dos quadrinhos, na TV o personagem ganhou também desenho animado, nos anos 70. E no programa “Casseta e Planeta, Urgente!”, Marcelo Madureira faz o personagem “Coisinha de Jesus”.

Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, “coisa nenhuma” vira “coisíssima”. Mas a “coisa” tem história na MPB. No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: “Disparada”, de Geraldo Vandré (“Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar”), e “A Banda”, de Chico Buarque (“Pra  ver a banda passar / Cantando coisas de amor”), que acabou de ser relançada num dos CDs triplos do compositor, que a Som Livre remasterizou. Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: “Coisa linda / Coisa que eu adoro”.

Cheio das coisas. As mesmas coisas, Coisa bonita, Coisas do coração, Coisas que não se esquece, Diga-me coisas bonitas, Tem coisas que a gente não tira do coração. Todas essas coisas são títulos de canções interpretadas por Roberto Carlos, o “rei” das coisas. Como ele, uma geração da MPB era preocupada com as coisas.

Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade (afinal, “são tantas coisinhas miúdas”). Já para Beth Carvalho, é de carinho e intensidade (“ô, coisinha tão bonitinha do pai”). “Todas as Coisas e Eu” é título de CD de Gal. “Esse papo já tá qualquer coisa … já qualquer coisa doida dentro mexe.” Essa coisa doida é uma citação da música “Qualquer Coisa”, de Caetano, que canta também: “Alguma coisa está fora da ordem.”

Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal coisa, e coisa e tal. O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. Gente fina é outra coisa… Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.

A coisa pública não funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando se elege, o eleitor pensa: “Agora a coisa vai.” Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!

Coisa à  toa. Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema “Eu, Etiqueta”, Drummond radicaliza: “Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente.” E, no verso do poeta, “coisa” vira “cousa”.

Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as coisas, para ser usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e outras “cositas” más.

Mas, “deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida”, cantarola Fagner em Canteiros, baseado no poema Marcha, de Cecília Meireles, uma coisa linda. Por isso, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento: “amarás a Deus sobre todas as coisas”.

Entendeu o espírito da “coisa”?

Desconheço o verdadeiro autor.

Raul Seixas

Posted in Música with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 29/08/2010 by Joe

Raul Santos Seixas nasceu em Salvador, Bahia, em 1945, filho de Raul Varella Seixas e Maria Eugênia Seixas. Filho da mesma região e geração de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa, entre tantos outros que definiram o movimento chamado Tropicália, Raul teve, ao contrário destes, em sua infância maior contato e assimilação do rock  and roll em virtude de ser vizinho e amigo de filhos de famílias americanas que trabalhavam para o consulado americano na Bahia.

Tornou-se logo fã ardoroso de Elvis Presley, fundando aos 14 anos um fã-clube brasileiro do cantor (Elvis Rock Club). Engana-se, porém, quem pensa que Raul renegou a cultura  brasileira adotando o rock and roll; odiava a bossa nova, mas acrescentou ao seu rock elementos de música nordestina como o baião, xaxado, música brega.

Aluno relapso (repetiu várias vezes a segunda série ginasial) apesar de muito inteligente e leitor voraz, rapidamente se cansou da escola decidindo pela profissionalização como músico. Em 1962 em meio ao movimento bossa nova que explodia no Brasil, Raul montou sua primeira banda, “Os Relâmpagos do Rock”, que mais tarde teria seu nome mudado para “The Panthers” e, finalmente, “Raulzito e os Panteras”.

Gravaram um compacto que seria distribuido para as rádios com duas músicas (sendo uma versão de Elvis Presley). Apresentaram-se em clubes e algumas vezes em rádio e TV. Começaram a formar fama como expressão local do movimento Jovem Guarda da época (liderado por Roberto Carlos, Jerry Adriani, Erasmo Carlos, Wanderléa, etc, por sua vez, versões brasileiras do sucesso dos Beatles).

Com o apoio de Jerry Adriani saiu em turnê pelo Brasil com os “Panteras” (abrindo os shows do primeiro) e gravaram, em 1968, o seu primeiro LP, auto intitulado. Não alcançando nenhuma repercussão a nível nacional, Raul voltou para Salvador, possivelmente pretendendo abandonar a música. Saiu da Bahia novamente para tentar carreira de produtor na CBS, onde produziu e compos para Jerry Adriani, Renato e Seus Blue Caps, Trio Ternura, Sérgio Sampaio, entre outros astros da época. Perdeu este emprego por produzir e gastar dinheiro sem conhecimento dos seus superiores na prensagem de seu segundo LP, “Sociedade da Grã Ordem Kavernista Apresenta Sessão das Dez”.

Em 1972 alcançou a tão desejada repercussão nacional classificando duas músicas no Festival Internacionl da Canção, evento de grande repercussão montado anualmente pela Rede Globo, um concurso de músicas. Raul participou com “Let Me Sing Let Me Sing” (que chegaria às finais) e “Eu Sou Eu, Nicuri é o Diabo”. A boa aceitação lhe valeu seu primeiro contrato com uma gravadora, a Philips Phonogram. Lançou um compacto de “Let Me Sing Let Me Sing” e o LP coletânea de covers “24 Maiores Sucessos da Era do Rock” (que nem mesmo traz o nome de Raul, sendo lançado sob o nome de uma banda, “Rock Generation”). O segundo compacto, “Ouro de Tolo”, foi o seu primeiro grande sucesso.

Em 1973 saiu o LP “Krig-Ha Bandolo!” apresentando as primeiras parcerias de Raul com o companheiro de estudos esotéricos, Paulo Coelho. Começaram a formar em parceria o grupo “Sociedade Alternativa”, anarquista, baseado na doutrina de Aleister Crowley e também destinado a estudos esotéricos. Chegaram a pensar em construir em Minas Gerais a comunidade alternativa Cidade das Estrelas. O movimento foi, porém, considerado subversivo pelo governo militar. Raul (que aparentemente passou por sessões de tortura), Paulo Coelho e as respectivas esposas (Edith e Adalgisa) foram exilados nos Estados Unidos. Lá, Raul conheceu alguns de seus ídolos, Elvis Presley, John Lennon e Jerry Lee Lewis.

Voltaram ao Brasil em 1974 em meio ao sucesso do segundo LP, “Gita”, possivelmente o seu lançamento de maior vendagens e repercussão, ganhando discos de ouro e participando da trilha sonora da novela “O Rebu”. A Philips chegou a relançar “24 Maiores Sucessos…” sob um novo nome, “20 Anos de Rock” e, dessa vez, com o nome de Raul. Seguiriam-se, então, LPs de grande repercussão, “Novo Aeon”, “Há 10 Mil Anos Atrás” (último em parceria com Paulo Coelho), “Raul Rock Seixas”, “O Dia Em Que a Terra Parou”.

A partir do final da década de 70 Raul Seixas começou a apresentar problemas de saúde em virtude de consumo exagerado de álcool. Não parou, porém, de lançar discos e projetos, “Mata Virgem”, “Por Quem os Sinos Dobram”, “Abre-te Sésamo”. Passou a sofrer de hepatite crônica em virtude da bebida e estava em um hiato de contratos e shows.

Após a queda de vendagens nos últimos discos, e um longo boicote de gravadoras, estourou novamente em 1983 com a música “Carimbador Maluco”, lançada em um single encartado junto com o LP “Raul Seixas”, mais tarde acrescida como faixa deste mesmo LP, mais famosa por ter sido usada no especial infantil “Plunct Plact Zumm” da Rede Globo. Seguiram-se os discos “Metrô Linha 743”, “Uah Bap Lu Bap La Bein Bum” (com o que seria seu último grande hit, “Cowboy Fora da Lei”) e “A Pedra do Gênesis”.

Em “Uah Bap Lu Bap La Bein Bum” e “A Pedra do Gênesis” foram usadas faixas que deveriam ser parte de um projeto maior, que nunca foi nunca lançado, chamado “Opus 666”, elaborado a partir de 1982, após o fracasso de um outro projeto, “Nuit”. O projeto “Opus 666” consistiria de discos lançados em inglês e distribuídos fora do circuito padrão das gravadoras. A capa projetada para “Opus 666” terminou sendo usada em “A Pedra do Gênesis”.

Em 1988 Raul passou a compor, gravar e excursionar com o também baiano Marcelo Nova, vocalista da banda Camisa de Vênus (então, em fase de extinção). O abortado “Nuit” teve música homônima lançada no LP “A Panela do Diabo”, sendo esta praticamente a única música que veio a público de todo o projeto original de Raul (que data de 1981, em parceria com Kika Seixas). Houve rumores de outro projeto, “Persona”, que também não deu certo.

Em 21 de Agosto de 1989, apenas dois dias após o lançamento de “A Panela do Diabo”, Raul Seixas morreu em virtude de pancreatite crônica, hipoglicemia e parada cardio-respiratória, conforme constou em seu atestado de óbito.

Curiosamente, após a sua morte, Raul teve o seu talento mais reconhecido do que nunca, arregimentando a cada dia mais seguidores, sendo lançados postumamente registros inéditos e coletâneas, todos sucessos de vendas.

Em sua carreira foi pioneiro na mistura de todo tipo de influência musical ao rock and roll, passeando e acrescentando, com desenvoltura e sem preconceitos, rítmos nordestinos (“Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor”), folk ao estilo Bob Dylan (“Ouro de Tolo”), música brega (“Sessão das 10”), umbanda (“Mosca na Sopa”). Em suas letras abordava com igual desenvoltura temas tão díspares quanto sentimentos humanos, críticas ao sistema, esoterismo e agnosticismo. A sua mensagem muitas vezes está implícita em letras que podem ser taxadas de bobas pelos menos perspicazes (vide a letra de “Carimbador Maluco”) e, em outros momentos, é pura poesia (como em “Canção Para Minha Morte”).

O video abaixo mostra uma das canções mais lindas, composição de Raul Seixas e Paulo Coelho. Claro que existem outras muito profundas, canções que marcaram uma época difícil, mas que deixaram saudades pelos poetas que traziam um pouco de luz sobre dias tão escuros!

Bibliografia:
Raul Seixas, Uma Antologia, de Sylvio Passos e Toninho Buda
Raul Seixas Eu Quero Cantar Por Cantar, de Ayrton Mugnaini Jr.

By Joe.

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