Arquivo para Iraque

Oráculos da verdade

Posted in Reflexão with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 19/03/2012 by Joe

O filósofo alemão Emmanuel Kant, num de seus brilhantes textos (O que é o Iluminismo?) sublinha um fenômeno que, na cultura televisual que hoje impera, é cada vez mais generalizado: as pessoas deixam de pensar por si mesmas. Preferem se colocar sob proteção dos “oráculos da verdade”: a revista semanal, o telejornal, o patrão, o chefe, o pároco ou o pastor.

Esses são os guardiões da verdade que velam para não nos permitir incorrer em “equívocos”. Graças a seus alertas sabemos que as mortes nas prisões de Bagdá e Guantánamo são acidentes de percurso comparadas à morte de um preso comum, disfarçado de político, num hospital de Cuba, em decorrência de uma greve de fome.

São eles que nos tornam palatáveis os bombardeios dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão, dizimando aldeias, e nos fazem encarar com horror a pretensão de o Irã fazer uso pacífico da energia nuclear, enquanto seu vizinho, Israel, tem a bomba atômica.

São eles que nos induzem a repudiar o MST em sua luta por reforma agrária, enquanto o latifúndio invade a Amazônia, desmata a floresta e usa mão de obra escrava.

É isso que, na opinião de Kant, faz do público Hausvieh, “gado doméstico”, de modo que todos aceitem permanecer confinados no curral, cientes do risco de caminhar sozinho.

Kant aponta uma lista de oráculos da verdade: o mau governante, o militar, o professor, o sacerdote, etc. Todos clamam “Não pensem!” “Obedeçam!” “Paguem!” “Creiam!”. O filósofo francês Dany-Robert Dufour sugere incluir o publicitário, que hoje ordena ao rebanho de consumidores: “Não pensem! Gastem!”

Como gado, o consumidor busca sua segurança na identificação com o rebanho, capaz de tornar homogêneo seu comportamento, criando padrões universais de hábitos de consumo através de uma propaganda que imprime a sensação de ter o desejo correspondido pela mercadoria adquirida. E quanto mais cedo se inicia esse adestramento ao consumismo, maior o lucro. O ideal é cada criança com um televisor no próprio quarto.

Para se atingir esse objetivo é preciso incrementar uma cultura do egoísmo como regra de vida. Não é por acaso que quase todas as peças publicitárias se baseiam na exacerbação de um dos sete pecados capitais. Todos eles, sem exceção, são tidos como virtudes nessa sociedade neoliberal corroída pelo afã consumista.

A inveja é estimulada no anúncio da família que possui um carro melhor que o de seu vizinho. A avareza é o mote das cadernetas de poupança. A cobiça inspira as peças publicitárias, do último modelo de telefone celular ao tênis de grife. O orgulho é sinal de sucesso dos executivos assegurados por planos de saúde eterna. A preguiça fica por conta das confortáveis sandálias que nos fazem relaxar ao sol. A luxúria é marca registrada dos jovens esbeltos e das garotas esculturais que desfrutam vida saudável e feliz ao consumirem bebidas, cigarros, roupas e cosméticos. Enfim, a gula envenena a alimentação infantil na forma de chocolates, refrigerantes e biscoitos, induzindo a crer que sabores são prenúncios de amores.

Na sociedade neoliberal, a liberdade se restringe à variedade de escolhas consumistas; a democracia, em votar nos que dispõem de recursos milionários para bancar a campanha eleitoral; a virtude, em pensar primeiro em si mesmo e encarar o semelhante como concorrente. Essa, a verdade proclamada pelos oráculos do sistema!

By Frei Betto, escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros. Site: http://www.freibetto.org.

Ameaça à Natureza?

Posted in Meio ambiente with tags , , , , , , , , , , , , , , on 30/10/2011 by Joe

O petróleo move o mundo: fez o Bush atacar o Iraque, criou o Osama, armou o Chávez. O petróleo é energia e morte para a vida, ao mesmo tempo berço e túmulo. Nos dá conforto e nos envenena.

Achávamos que o mundo acabaria em guerra nuclear. Agora, pode acabar sufocado e derretido. E diante dessa tragédia, como reagimos?

Muitos pensam:

– “É exagero desses ecologistas chatos! Não acredito: a ciência vai achar uma solução”!

Ou então, o contrário:

– “Esses cientistas são uns idiotas, é tudo mentira!”

Ou ainda:

– “Temos de cuidar do presente, o futuro a Deus pertence! Não podemos parar a produção e causar desemprego!”

Ou ainda:

– “Ah, eu não quero nem saber. Sabe o que mais? Dane-se. Até lá, eu já morri”.

É isso. E o tragicômico é que nos referimos aos problemas ambientais como sendo uma “ameaça à Natureza”. Que nada! A Natureza não esta nem aí. Já morreu dinossauro, já houve idade do gelo, chuva de asteróides e a Natureza continua numa boa.

Quem vai acabar é a raça humana. A Natureza está pouco se lixando para nós.

By Arnaldo Jabor.

Oráculos da verdade

Posted in Reflexão with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 02/06/2010 by Joe

O filósofo alemão Emmanuel Kant, num de seus brilhantes textos – “O que é o Iluminismo?” – sublinha um fenômeno que na cultura televisual que hoje impera é cada vez mais generalizado: as pessoas deixam de pensar por si mesmas. Preferem se colocar sob proteção dos “oráculos da verdade”: a revista semanal, o telejornal, o patrão, o chefe, o pároco ou o pastor.

Esses os guardiões da verdade que velam para não nos permitir incorrer em “equívocos”. Graças a seus alertas sabemos que as mortes nas prisões de Bagdá e Guantánamo são acidentes de percurso comparadas à morte de um preso comum, disfarçado de político, num hospital de Cuba, em decorrência de uma greve de fome.

São eles que nos tornam palatáveis os bombardeios dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão, dizimando aldeias, e nos fazem encarar com horror a pretensão de o Irã fazer uso pacífico da energia nuclear, enquanto seu vizinho, Israel, tem a bomba atômica.

São eles que nos induzem a repudiar o MST em sua luta por reforma agrária. Enquanto o latifúndio invade a Amazônia, desmata a floresta e usa mão de obra escrava.

É isso que, na opinião de Kant, faz do público Hausvieh, “gado doméstico”, de modo que todos aceitem permanecer confinados no curral, cientes do risco de caminhar sozinho.

Kant aponta uma lista de oráculos da verdade: o mau governante, o militar, o professor, o sacerdote etc. Todos clamam “Não pensem!” “Obedeçam!” “Paguem!” “Creiam!”. O filósofo francês Dany-Robert Dufour sugere incluir o publicitário, que hoje ordena ao rebanho de consumidores: “Não pensem! Gastem!”

Como gado, o consumidor busca sua segurança na identificação com o rebanho, capaz de tornar homogêneo seu comportamento, criando padrões universais de hábitos de consumo através de uma propaganda que imprime a sensação de ter o desejo correspondido pela mercadoria adquirida. E quanto mais cedo se inicia esse adestramento ao consumismo, maior o lucro. O ideal é cada criança com um televisor no próprio quarto.

Para se atingir esse objetivo é preciso incrementar uma cultura do egoísmo como regra de vida. Não é por acaso que quase todas as peças publicitárias se baseiam na exacerbação de um dos sete pecados capitais. Todos eles, sem exceção, são tidos como virtudes nessa sociedade neoliberal corroída pelo afã consumista.

A inveja é estimulada no anúncio da família que possui um carro melhor que o de seu vizinho. A avareza é o mote das cadernetas de poupança. A cobiça inspira as peças publicitárias, do último modelo de telefone celular ao tênis de grife. O orgulho é sinal de sucesso dos executivos assegurados por planos de saúde eterna. A preguiça fica por conta das confortáveis sandálias que nos fazem relaxar ao sol.

A luxúria é marca registrada dos jovens esbeltos e das garotas esculturais que desfrutam vida saudável e feliz ao consumirem bebidas, cigarros, roupas e cosméticos. Enfim, a gula envenena a alimentação infantil na forma de chocolates, refrigerantes e biscoitos, induzindo a crer que sabores são prenúncios de amores.

Na sociedade neoliberal, a liberdade se restringe à variedade de escolhas consumistas; a democracia, em votar nos que dispõem de recursos milionários para bancar a campanha eleitoral; a virtude, em pensar primeiro em si mesmo e encarar o semelhante como concorrente. Esta a verdade proclamada pelos oráculos do sistema.

By Frei Betto, escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros. Site: www.freibetto.org.

Ameaça à Natureza?

Posted in Meio ambiente with tags , , , , , , , , , , on 22/12/2009 by Joe

O petróleo move o mundo: fez o Bush atacar o Iraque, criou o Osama, armou o Chávez. O petróleo é energia e morte para a vida, ao mesmo tempo berço e túmulo. Nos dá conforto e nos envenena.

Achávamos que o mundo acabaria em guerra nuclear. Agora, pode acabar sufocado e derretido. E diante dessa tragédia, como reagimos?

Muitos pensam: “é exagero desses ecologistas chatos! Não acredito: a ciência vai achar uma solução”! Ou então, o contrário: “esses cientistas são uns idiotas, é tudo mentira”!

Ou: “Temos de cuidar do presente, o futuro a Deus pertence! Não podemos parar a produção e causar desemprego!”

Ou ainda: “Ah, eu não quero nem saber. Sabe o que mais? Dane-se. Até lá, eu já morri”.

É isso. E o tragicômico é que nos referimos aos problemas ambientais como sendo uma “ameaça à Natureza”. Que nada! A Natureza não esta nem aí. Já morreu dinossauro, já houve idade do gelo, chuva de asteróides … e a Natureza continua numa boa.

Quem vai acabar é a raça humana. A Natureza está pouco se lixando para nós.

By Arnaldo Jabor.

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