Arquivo para Consumismo

Do mundo virtual ao espiritual

Posted in Reflexão with tags , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , on 02/03/2010 by Joe

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento no aeroporto: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir:

“Qual dos dois modelos produz felicidade?”

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei:

– “Não foi à aula?”. E ela respondeu:

– “Não, tenho aula à tarde”.

Comemorei:

– “Que bom! Então, de manhã você pode brincar ou dormir até mais tarde”.

– “Não”, retrucou ela, “tenho tanta coisa de manhã…”

– “Que tanta coisa?”, perguntei.

– “Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina”, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando:

– “Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação’!”

Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Por isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um super-executivo se não se consegue se relacionar com as pessoas. Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação!

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias!

Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos:

– “Como estava o defunto?”.

– “Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!”

Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Outrora, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse.

Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real! É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais.

A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil – com raras e honrosas exceções – é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos.

A palavra hoje é ‘entretenimento’! Domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres:

– “Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!”

O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede, desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima e ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade – a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center.

É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas …

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas, se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno!

Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald’s …

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas:

– “Estou apenas fazendo um passeio socrático.”

Diante de seus olhares espantados, explico:

– “Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.”

By Frei Betto

Desigualdade social

Posted in Atualidade with tags , , , , , , , , , , , , , on 03/01/2010 by Joe

A desigualdade social não é um problema recente, mas sim, algo que está presente no contexto do mundo há bastante tempo. O homem sempre foi movido pela ambição, pela vontade de ter mais que o outro e, assim, a sociedade foi se tornando cada vez mais desigual.

A desigualdade consiste no fato de poucos terem muito e muitos terem pouco, resultado da má distribuição de renda. Esse problema aumentou suas dimensões quando o homem começou a visar o lucro. Houve sistemas que tentaram conter a desigualdade, como é o caso do socialismo, mas que fracassou diante de um mundo dito “democrático” e consumista.

Hoje vivemos numa sociedade capitalista e bastante desigual, dividida por classes socias. Os pobres são os que mais sofrem com essa realidade e são vítimas constantes de problemas sociais como a fome e o desemprego.

No video abaixo, uma montagem com música de Alanis Morissette e imagens que retratam essa desigualdade social que assola a maioria dos países do planeta.

No link a seguir, veja dados que refletem bem o quanto essa desigualdade poderia ser minimizada (e quase eliminada), não fossem os desperdícios com guerras outras superficialidades do ser humano …

http://www.consciencia.net/mundo/desigual.html

By Joe.

As quatro loucuras da sociedade

Posted in Reflexão with tags , , , , , , on 26/11/2009 by Joe

Certa vez, ao ser entrevistado, Roberto Shinyashiki foi perguntado se muitas pessoas buscam sonhos que não são seus. Ele respondeu que, normalmente, a sociedade quer definir o que é certo. E é aí que ela comete quatro loucuras:

“A primeira loucura é instituir que todos têm de ter sucesso, como se ele não tivesse significados individuais.

A segunda loucura é: você tem de estar feliz todos os dias.

A terceira é: você tem que comprar tudo o que puder. O resultado é esse consumismo absurdo.

Por fim, a quarta loucura: você tem de fazer as coisas do jeito certo. Jeito certo não existe.

Não há um caminho único para se fazer as coisas. As metas são interessantes para o sucesso, mas não para a felicidade. Felicidade não é uma meta, mas um estado de espírito.

Tem gente que diz que não será feliz enquanto não casar, enquanto outros se dizem infelizes justamente por causa do casamento.

Você pode ser feliz tomando sorvete, ficando em casa com a família ou amigos verdadeiros, levando os filhos para brincar ou indo a praia ou ao cinema.

Quando eu era recém-formado em São Paulo, trabalhei em um hospital de pacientes terminais. Todos os dias morriam nove ou dez pacientes. Eu sempre procurei conversar com eles na hora da morte. A maior parte pega o médico pela camisa e diz:

– ‘Doutor, não me deixe morrer. Eu me sacrifiquei a vida inteira, agora eu quero aproveitá-la e ser feliz’.

Eu sentia uma dor enorme por não poder fazer nada. Ali eu aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas. Ninguém na hora da morte diz se arrepender por não ter aplicado o dinheiro em imóveis ou ações, mas sim de ter esperado muito tempo ou perdido várias oportunidades para aproveitar a vida.

By Roberto Shinyashiki, em entrevista a Camilo Vannuchi, da Revista IstoÉ.

A era da insensatez

Posted in Reflexão with tags , , , , , , on 29/07/2009 by Joe

BrasilExistem os olhos, e existe o olhar …

Troque de carro! Troque de tevê! Troque de celular! Mude para nossa operadora, temos os melhores planos! Beba mais cerveja … compre … troque … venha ….. 24 horas por dia, 7 dias por semana!

Os apresentadores do Jornal Nacional e do Fantástico fazem pose de preocupados quando o assunto é aquecimento global e crise ambiental, porém, a mídia televisiva, mais do que qualquer outra, estimula incessantemente o consumismo, e quão pouco faz para conscientizar…

Não estranhe se amanhã, na abertura do Jornal Nacional, anunciarem o velório da coerência, pois vivemos na Era da Insensatez.

“Consumo, logo existo.”

Na sociedade consumista, quem não consome não existe. Triste tempo o nosso …

William Bonner equiparou o telespectador do Jornal Nacional a Homer Simpson – um sujeito preguiçoso, burro, que adora ficar no sofá, assistindo tevê, comendo rosquinhas e bebendo cerveja, e que só dá mancadas na vida.

O mais preocupante, porém, não é o fato de termos como editor-chefe e apresentador do maior telejornal do país alguém que nivela milhões de telespectadores com “Homer Simpson”…

A pergunta que devemos nos fazer é:

– E se William Bonner tiver razão? Como foi que alcançamos tal condição, e a quem interessa que continuemos assim?

No Brasil, segundo o Ibope, as pessoas vêem, em média, cinco horas de tevê Passividadepor dia.

Até quando vamos prolongar nosso passivo imobilismo, nossa paralisante apatia?

O sonho dos atuais diretores televisivos é ter como audiência uma imensa massa acrítica, sem uma real capacidade de análise. Um público que não pensa, que não questiona, que é facilmente manipulado, que compra quando e o que lhe mandam comprar.

Por lei, as emissoras são obrigadas a incluir programas educativos na sua programação. Porém, tais programas são relegados a horários de pouquíssima audiência. Globo Ciência e Globo Ecologia passam, por exemplo, de manhã, quase de madrugada, a partir das 6:30h.

A educação leva a um consumo consciente, diminuindo o faturamento das emissoras. Quanto mais se anular o “sujeito pensante”, maior o lucro imediato…

– Segunda a sexta … TV Globinho, Mais Você, Vídeo Show, Vale a Pena Ver de Novo (será que vale mesmo?), Sessão da Tarde, Malhação, Novela das seis, Jornal local, Novela das sete, Jornal Nacional, Novela das oito (a partir das nove horas!), Tela Quente, Casseta e Planeta, Futebol, Linha Direta, Propagandas … Compre … Beba … Consuma … Exista!!!

E chega mais um domingo, e o que já era ruim consegue a proeza de piorar ainda mais! O que dizer do Domingão do Faustão?

“O ser humano ainda não tinha aprendido a amar o próximo e já tinha inventado a televisão, que ensina a desprezar o distante”. (Millôr Fernandes).

E o que dizer das vídeo-cassetadas do Faustão? Pancadas que ferem, tombos que machucam …

Em maio de 1995 o ator Christopher Reeve sofreu uma queda enquanto andava a cavalo. O acidente o deixou tetraplégico. Pouco tempo depois, em outubro de 2004, veio a falecer aos 52 anos de idade, devido à saúde fragilizada em decorrência da queda. Sua esposa, Dana Reeve, também viria a falecer em seguida, em 2006, aos 44 anos de idade.

Alguns associam o surgimento do câncer que a levou ao sofrimento que vivenciou ao lado do marido. O casal deixou um filho, Will Reeve, de 13 anos de idade.

“Faustão, da próxima vez que resolver zombar dos tombos e da desgraça alheia, lembre-se da sina desta família!”

Esta apresentação será interrompida por alguns minutos. Voltaremos logo após os “Reclames do Plim-Plim”…

Beba com moderação!!!

“Países desenvolvidos vêm estabelecendo políticas restritivas para o anúncio de bebidas alcoólicas, inclusive cerveja, preocupados com a saúde da população em geral e dos jovens em particular. Tais restrições ocorrem pela simples e óbvia valorização da vida”.

“Uma série de estudos demonstra que, no Brasil, os jovens bebem cada vez mais e, ainda por cima, começam mais cedo. É simplesmente risível imaginar que eles teriam mais cautela apenas ouvindo aquela rápida frase de alerta depois do sensualíssimo anúncio com mulheres estupendas!” (Gilberto Dimenstein).

Segundo levantamento realizado pela PUC/RS, os acidentes de trânsito, nas estradas e nas vias urbanas, resultam em mais de 80.000 mortes por ano no Brasil. De acordo com o Ministério da Saúde, pelo menos metade destes acidentes estão relacionados com o consumo de bebidas alcoólicas.

Embriague-se com moderação…

E o que dizer de Pedro Bial, quando se dirige aos participantes do Big Brother chamando-os de “nossos heróis” e “nossos mártires”? (Quão deturpados os conceitos de heroísmo e martírio transmitidos. A que ponto chegamos …)

Escola públicaEscola pública localizada no sertão pernambucano. Não há acabamento nas paredes. Há um ano sem merenda escolar. O banheiro está interditado. Não seria mais sensato qualificar de heróis e mártires os nossos professores?

Eles que, quase sem nenhum reconhecimento, e em condições tão adversas, tentam manter acesa a chama do saber e do conhecimento. Heróis e heroínas são também os pequeninos alunos com seus chinelos gastos, muitas vezes obrigados a percorrer longas distâncias a pé para chegar à sala de aula.

Bial, junte a produção do BBB, e vão assistir ao documentário “Pro Dia Nascer Feliz”, do diretor João Jardim, que aborda a situação da educação no Brasil (é o mínimo que formadores de opinião deveriam fazer!).

Quem sabe o próximo “reality show” possa mostrar a dura realidade de muitos professores e alunos da rede pública, seja no sertão nordestino, seja nas periferias de qualquer capital. Aí sim teríamos um show de realidade!

Enquanto que em outros países o formato “reality show” vem perdendo espaço, no Brasil continua ocupando o horário nobre, o que prova a competência dos marqueteiros globais. A Rede Globo já comprou os direitos de transmissão do BBB até o ano 2011. Um programa fútil, vazio, totalmente desprovido de qualquer princípio ético, e que instituiu a fofoca em escala nacional.

E o que dizer das festas promovidas pela produção do Big Brother? Que belo exemplo são para os nossos jovens: “Bebam para serem felizes, para promoverem farras sexuais”. Obrigado, Rede Globo!

“Admitir ver o ‘Big Brother Brasil’ significa cada vez mais confessar uma falha de escolaridade, passar recibo de fútil, solitário, imaturo, ‘low class’. Nunca deu status para ninguém acompanhar esse programa. Só queima o filme. Fuja de gente viciada nisso.” (Folha de São Paulo).

Já foi dito que o teatro é a arte do ator, o cinema é a arte do diretor, e a televisão é a arte do patrocinador. A televisão funciona como um intermediário entre a agência de propaganda, que quer vender o seu produto, e a audiência, o telespectador. A tevê só existe por causa do intervalo.

Enquanto professores e escolas se esforçam para formar cidadãos, a televisão fabrica consumidores. A guerra pela audiência, como toda guerra, é covarde e suja. E na guerra pela audiência, como em qualquer guerra, são as crianças as principais vítimas!

“A televisão foi a maior tragédia que aconteceu à humanidade, e não tem comparação com nenhuma guerra.” (Valdemar Setzer, Professor da USP).

Em outubro (2008), mês das crianças, o valor gasto no Brasil em publicidade dirigida ao público infantil foi de aproximadamente R$ 210 milhões. Neste mesmo período, foram investidos no Programa Federal de Desenvolvimento da Educação Infantil (FNDE) cerca de R$ 28 milhões.

A televisão transforma crianças da mais tenra idade em consumidores. Leia a seguir trechos do depoimento de uma jovem mãe, publicado recentemente no jornal Folha de São Paulo:

“Às vezes, chego até a achar que ele está de sacanagem – mas não, aos quatro anos e meio, as crianças ainda não dominam um recurso como o sarcasmo. É que meu filho, quando vê televisão, fica muito atento aos anúncios e, ao final de cada um, declara: “Quero um desses”. Sua afirmação é tranqüila, em tom de voz normal, mas é a inequívoca expressão de uma vontade.”

“Há variações. Quando o objeto em questão é escancaradamente “de menina”, na profusão de rosas e lilases e florzinhas e babados, ele faz o reparo: “Mas se tiver ‘de menino'”.

“Quando isso começou, o pai e eu demos explicações simplificadas sobre orçamento doméstico (“não dá para comprar tudo o que vemos”) e, claro, nos afligimos com o impacto brutal da propaganda sobre a nossa criança.”

“A cada interrupção de seus desenhos, continua a fazer seu catálogo mental, um rol infindável de desejos: o tênis com rodas, armas poderosas de super-heróis inacreditáveis (“mamãe, você sabe que com isso vira Power Ranger de verdade?”), mais tocadores de MP3, celulares (“mamãe, isso é de criança? Se for, eu quero”), videogames e até títulos de previdência privada anunciados como se fossem pirulitos!”

“Não há refúgio: até mesmo nos canais pagos com preocupações ditas educativas, a disputa pela hora em que a criança formula o desejo de ter algo que precisa ser comprado pelos pais é implacável. Por ora, suponho, tenho sorte. Nos ajeitamos lá em casa, mas não sei até quando esse armistício dura.”

Especialistas em comportamento infantil tem constatado mudanças significativas provocadas pela exposição massiva e precoce à publicidade. Segundo constatado, dentre as primeiras palavras pronunciadas, as primeiras intenções de transmitir uma mensagem verbal, já aparece a palavra “compra”…

Pesquisa realizada com crianças de nove anos de idade, de escolas particulares da cidade de São Paulo, revelou que elas trocam, em média, seus aparelhos celulares a cada seis meses, por novos lançamentos. Este consumismo desenfreado, que nos tem conduzido à iminência de um colapso ambiental, é apenas um dos efeitos maléficos da televisão. Bens materiais perderam seus valores intrínsecos, passando a ser vistos como objetos de ostentação. Será que uma criança de nove anos tem necessidade de um aparelho celular?

SorriaDiante da tevê, o telespectador está fisicamente inativo. Dos seus sentidos, trabalham somente a visão e a audição, mas de maneira extremamente parcial. Os olhos, por exemplo, praticamente não se mexem. Os pensamentos estão praticamente inativos: não há tempo para raciocínio consciente e para fazer associações mentais, já que a atividade cognitiva está muito lenta. Isso ficou provado em pesquisas sobre os efeitos neurofisiológicos da tevê.

O eletroencefalograma e a falta de movimento dos olhos de uma pessoa vendo televisão indicam um estado de desatenção, de sonolência, de semi-hipnose. O piscar da imagem, os estímulos visuais exagerados e contínuos, e a passividade física do telespectador, especialmente seu olhar fixo, fazem com que o cenário seja semelhante a uma sessão de hipnose.

Na leitura, é preciso produzir uma intensa atividade interior: num romance, imaginar o ambiente e os personagens; num texto filosófico ou científico, associar constantemente os conceitos descritos.

A tevê, pelo contrário, não exige nenhuma atividade mental – as imagens chegam prontas, não há nada para associar. Não há possibilidade de pensar sobre o que está sendo transmitido, porque as velocidades das mudanças de imagem, de som e de assunto impedem que o telespectador se concentre e acompanhe a transmissão conscientemente. Uma condição similar à da hipnose.

Tudo isso significa que o telespectador está num estado de consciência que tem os animais quando não são atraídos por uma atividade exterior (como caçar, prestar atenção em um possível perigo, procurar alimento, etc.).

“A televisão mata a imaginação e leva ao estado hipnótico.”

“Na tevê não há aprendizado, há condicionamento.” (Valdemar Setzer Professor da USP).

Crianças e TVInfelizmente, a televisão vem ocupando um crescente papel na transmissão dos caminhos da infância. As emissoras e os anunciantes assumiram tal incumbência pensando no seu próprio lucro imediato, e não nas crianças ou no futuro da nação.

Além de condicionar um consumismo desenfreado, estudiosos listam, ainda, dentre as influências maléficas da televisão:

– sobrecarga sensorial, sendo que a tevê hiperestimula o cérebro e faz com que se perca o costume de prestar atenção em atividades que exigem uma concentração maior, tais como ler, jogar xadrez ou assistir às aulas;
– indução a comportamentos violentos;
– desencadeamento de uma sexualidade prematura, artificial e doentia.

Lembre-se de que o exemplo é o mais forte dos ensinamentos. Não podemos restringir o tempo de televisão de nossos filhos sem reduzir o nosso próprio. Além do que, a cultura comercial e consumista é ruim para as crianças, e também para nós adultos: ao protegê-las, poderemos também nos libertar.

– Limite sua própria permanência frente à televisão. Dê um bom exemplo através de sua moderação e discriminação ao assistir programas;
– Torne-se um alfabetizado na mídia, avaliando criticamente a programação e as publicidades veiculadas;
– Não transforme a tevê no ponto central da casa. Evite colocar a tevê no lugar mais importante;
– Ligue a tevê somente quando houver algo específico que você decidiu que vale a pena assistir;
– Evite usar a televisão como se fosse uma babá para seus filhos.

Maria Teresa Rocco, professora da Faculdade de Educação da USP e estudiosa da televisão há mais de 20 anos, aconselha uma exposição diária de, no máximo, 45 minutos. Se atentarmos para o fato de que a criança brasileira passa em média cinco horas por dia em frente à tevê (Ibope), quanta influência da mídia ela sofre?

Descontos de arrepiar! É para zerar! Não deixe passar! Venha correndo aproveitar! Compre! Beba! Schwarzenegger! Van Damme! Steven Seagal!

E agora, os gols de Tuna Luso e Itumbiara pela “série C” do campeonato brasileiro!

E no horário nobre: “Deborah Secco de calcinha e sutiã dá recorde de audiência à novela Paraíso Tropical” (Fonte: Folha de SP).

E no nobre horário: Com a “Dança do Poste” de Flávia Alessandra, “Duas Caras” alcança 40 pontos no Ibope pela primeira vez!

“Zorra Total”, o segundo programa mais assistido pelo público infantil …

Divirta-se com os comentários cruéis e venenosos do Faustão, o riso que se compraz com a humilhação do próximo, a cultura do escárnio…

O quê? O teu suado dinheiro acabou? Já não dá mais pra comprar o que te anuncio – supérfluos itens consumistas?

“Quem disse que não dá? Na Fininvest dá!” Venha correndo pegar dinheiro emprestado!

Endivide-se! Perca noites de sono por conta de dívidas e credores. Enriqueça os agiotas … Mas não deixe de consumir…Espiadinha

E agora, vamos dar aquela espiadinha…

Alemão, Bam-bam, Priscila e Siri (nossos heróis, segundo os produtores do BBB).

É dia de paredão:

“Se você quer eliminar fulaninho, ligue … Se você quer eliminar fulaninha, ligue…” (maldade tirar assim o dinheiro dos pobres e dos pouco instruídos).

“Passarinho quer dançar, o rabicho balançar, porque acaba de nascer, tchu tchu tchu…”

Quão vazia uma vida pode se tornar …

É na infância que se cria uma dependência que, freqüentemente, continua pelo resto da vida.

Nada melhor que a tevê para preencher uma vida vazia, carente de aspirações elevadas e sem padrões morais firmes.

“Só teremos um país de verdade no dia em que gastarmos mais com escolas do que com televisão, isto é, no dia em que gastarmos mais com a educação do que com a falta de educação.” (Millôr Fernandes).

Darcy Ribeiro (1922-1997), um dos maiores defensores da educação no país, o que lhe valeu o apelido de “O Poeta da Educação”.

Ele defendia a instituição da educação em tempo integral no país. Dizia que a escola em turnos é uma perversão brasileira e que, enquanto num turno a escola educa a criança, no contra-turno a tevê deseduca. Como se pode prosseguir assim?

“Sou um homem de causas. Vivi sempre pregando, lutando, como um cruzado, pelas causas que comovem: a salvação dos índios, a escolarização das crianças. Na verdade, somei mais fracassos que vitórias em minhas lutas, mas isso não importa. Horrível seria ter ficado ao lado dos que venceram nessas batalhas.” (Darcy Ribeiro).

Por quanto tempo, ainda, iremos ignorar os conselhos e o inestimável legado, por implementar, de Darcy Ribeiro e de todos os grandes educadores e humanistas?

Por quanto tempo, ainda, iremos permitir que os senhores globais nos tratem como se fôssemos “Homer Simpson”?

Por quanto tempo, ainda, iremos permitir que Faustão, Gugu, Tiririca e Pedro Bial “eduquem” as nossas crianças?

Sabendo que o compromisso deles é com os anunciantes, o seu trabalho, impulsionar as vendas.

Eficientes campanhas publicitárias nos fazem acumular um acervo de ornamentos e adereços absolutamente dispensáveis (como a constante troca de aparelhos de celular).

Vender ou não vender um produto é simples questão de marketing. Basta saber provocar no consumidor o “desejo de consumo”.

Que infância estamos construindo?

Lembre-se de que a criança só fica alegre quando recebe alguma coisa de seu interesse: seja um bem material, como um presente ou um bem imaterial, como atenção, respeito, carinho. E, dentre estes dois bens, certamente é o imaterial que ocasiona a felicidade verdadeira, duradoura e genuína. Basta rememorarmos a nossa própria velha infância.

Quais as lembranças mais caras que ficaram guardadas da tua infância?

Quais as recordações que ainda fazem sorrir a tua alma?

“Nada é para sempre, dizemos, mas há momentos que parecem ficar suspensos, pairando sobre o fluir inexorável do tempo.” (José Saramago).

O verdadeiro tempo é o da memória …

E o que sabemos sobre o tempo, sobre a memória, sobre a vida?

“O ser humano é um ser complexo, cheio de sutilezas”.

“É um ser que deve ser valorizado em sua singularidade. Cada ser é único, essa é sua riqueza, por isso somos todos tão preciosos. Essa banalização do amor, da violência, do sexo, da solidão, essa banalização da vida que a gente vê na tevê é a própria negação da arte. A vida passa a perder importância.” (Alcione Araújo, escritor).

A arte tem o poder de abrir os canais da sensibilidade. A arte nos possibilita adquirir vivências que não vivemos, enriquecendo a nossa aventura existencial. A arte é um aprofundamento da experiência de estar no mundo, um mergulho na vida.

O processo de produção televisivo é a própria negação da arte, uma vez que procura gerar uma cultura de massa, com vistas a vender o produto do anunciante.

Procure familiarizar teus filhos e netos, desde a tenra idade, com a riqueza da arte – teatro, literatura, música, artes plásticas. O livro é um tesouro, tesouro maior, o livro lido.

O que falta para a gente mudar o ângulo do olho e perceber as belezas que estão à nossa volta?

Desligue a tevê, e torne a vida num lugar melhor!

(Desconheço a autoria deste texto).

Nota do Blog:

BombaNão sou hipócrita a ponto de dizer que não assisto TV. Claro que tenho alguns poucos programas que acompanho quando posso. Porém, a questão central não é deixar de assistir TV apenas como uma posição idealista, mas sim, procurar ter senso crítico sobre o que nos é apresentado diariamente como sendo a cereja do bolo global.

Outro ponto importante é não deixarmos que a TV seja a babá de nossos filhos, criando zumbis consumistas desde cedo, sem vontade própria, num impulso vazio de conceitos sobre a necessidade ou adequação dos produtos em nossas vidas.

O que proponho, com a apresentação deste texto, é a reflexão crítica sobre a mídia que entra em nossas casas sem nos pedir licença, impondo moldes criados por quem apenas deseja a mudança de costumes e valores através do consumo de produtos e ideias, nem sempre visando o bem da família e do indivíduo!

Um exemplo de insensatez que a TV produz nos seus “passientes” (me permitam aqui esse neologismo, no sentido das pessoas que, passivamente, assistem aos programas de TV) pode ser constatado nos valores arrecadados com um programa como o BBB. Veja dados publicados na Folha Ilustrada:

O faturamento do “Big Brother Brasil” cresceu 55% e a Globo deve embolsar R$ 280 milhões, segundo informou a coluna de Daniel Castro. Com isso, o programa renderá à emissora carioca R$ 100 milhões a mais que no ano passado. O desempenho do “BBB” é superior a todo o faturamento anual da RedeTV!, de acordo com estimativas. Com o reality show, a Globo arrecada um terço de toda a receita da Record ou do SBT na Grande São Paulo.
Apesar de ser o maior fenômeno comercial da temporada, a audiência do “BBB 9″ não decolou, como informou a coluna Ooops. Segundo esta, nas últimas cinco edições do “BBB”, o reality show registrou uma redução de 33% no número de telespectadores.

Em contraposição a esse faturamento, temos o Criança Esperança que, segundo dados do site Ajuda Brasil, ítem 12 Resultados Atingidos, informa:

Promovida pela Rede Globo em parceria com a Unesco, o Criança Esperança é uma campanha de arrecadação de fundos que em 21 anos já angariou R$ 161 milhões, investidos integralmente no Brasil, em mais de 4.840 projetos sociais, beneficiando mais de 3 milhões de crianças e adolescentes em todo o país.

Em um único paredão, estima-se que a Rede Globo arrecade mais de 4,5 milhões de reais. Conta rápida: quase 30 milhões de votos X R$ 0,30 = 9 milhões de reais. Levando-se em conta que nem todos esses votos são provenientes de ligações telefôncias, tirando-se uma taxa paga às operadoras de telefonia, pode-se estimar que esse valor ainda esteja subestimado. Sem contar as cotas de patrocinadores!

Pasmem! Em 21 anos, arrecadou apenas metade do valor de uma edição do BBB. E aí entra o que eu dizia antes: a insensatez da coisa em pagar tanto dinheiro para se ter um entretenimento vazio, que não acrescenta nada, em detrimento de tantas crianças que poderiam ser beneficiadas!

Quem sabe se criassem um BBB-Criança Esperança …. não … acho que não daria Ibope nenhum … programas como o BBB só foram “sucesso” em países onde o povo é ignorante, sem cultura, que paga pra votar em um (ou uma) idiota qualquer,  mas não lembra em quem votou nas últimas eleições!

Pobre Brasil …

By Joe.

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