Vontade, pra que te quero?

Vontade pra que te quero

Durante aquela longa noite brasileira da ditadura militar, os caras, incomodados com os artigos escritos por um famoso jornalista, entraram na redação de seu jornal e quebraram tudo, inclusive esmagaram as suas mãos para que ele não pudesse mais escrever.

No dia seguinte, o jornalista voltou a publicar seus artigos, onde comentou algo como “eles acham que os jornalistas escrevem com as mãos”.

A gente sabe que não são apenas jornalistas que prescindem das mãos para escrever. Um dos maiores gênios da humanidade não escreve com as mãos. Nem poderia. Elas não têm movimentos. Nem suas mãos, nem seus pés. Nem o seu corpo. Stephen Hawkins, autor de várias obras científicas, é tetraplégico.

Mas não é só escrever que a gente faz sem precisar das mãos. A gente pode andar sem pés, enxergar sem olhos, ouvir sem ouvidos. A gente pode até voar sem asas. O ser humano pode tudo. E a prova disso é que uma das mais famosas obras que a humanidade já leu, e que descreve uma região onde tudo é beleza e harmonia, e onde são descritas paisagens belíssimas, pasmem, foi escrita por um deficiente visual.

Milton, autor de “O Paraíso Perdido”, não surpreende apenas por sua narrativa criativa, mas pela capacidade de ver uma beleza que nós, videntes, não enxergaríamos sem sua ajuda. Bobagem falar que Beethoven não escutava a música que fazia. Quer dizer, não escutava com os ouvidos materiais, mas os ouvidos de sua alma – benza-os Deus! – como distinguiam sons talvez inaudíveis para nós, ouvintes!

Mas, pensando bem, se deficiência física não é limitação para se fazer o que se quer, o que nos pode limitar? Seria a deficiência cerebral? Vejamos. Você já ouviu falar em “idiot-savants”? São pessoas como aquele personagem de “Rain Man”, filme baseado em uma história real. O personagem do filme possuía uma limitação cerebral que o impedia de muita coisa, mas que era um gênio do cálculo, fazendo operações complicadíssimas de raiz-quadrada e equações mais rapidamente, e tão corretamente, como as realizadas por calculadoras científicas.

Tem um desses “savants” na Inglaterra que é capaz de reproduzir, com exatidão, desenhando, qualquer coisa. Colocado durante alguns instantes diante de um castelo, pode reproduzí-lo, sem mais voltar a olhar para ele, com detalhes impressionantes e com uma qualidade fotográfica, exatamente na escala, toda a sua complicada arquitetura, inclusive detalhes como quais janelas estavam abertas ou fechadas e o seu número exato. Entretanto, perguntado sobre quantas janelas havia no castelo, ele não soube responder. Não sabia e não podia contar, dada a sua deficiência cerebral (ele não possui uma grande porção do cérebro). Mas as janelas desenhadas eram exatamente as 144 visíveis.

Um outro desses “savants” não consegue manter uma conversação coerente, mas tem ouvido absoluto: ouve qualquer peça musical, por mais complicada que seja, apenas uma vez, e a reproduz sem faltar uma nota sequer, ao piano.

E agora? Se deficiências físicas e cerebrais não constituem limites ao livre vôo para o sucesso, se as barreiras encontradas em um setor podem ser superadas de outra forma, o que impede uma pessoa – deficiente ou não – de atingir os seus objetivos de felicidade? É a falta de flexibilidade para encontrar outros caminhos. Só é infeliz quem não encontra opções para fazer de outro jeito, o que não pode fazer como os outros fazem. E o que os torna infelizes é teimar em fazer o que não podem.

É comum confundir teimosia com persistência. Se eu tenho mais de sessenta anos e não chego a 1,70 de altura, por que vou teimar em querer entrar para a seleção brasileira de basquete? Mas serei persistente se procurar descobrir outras escolhas esportivas que a vida me oferece para que eu possa fazer algo bem feito. Observe que todas as pessoas citadas aqui encontraram alternativas para fazer as coisas.

A felicidade é isso: é encontrar o jeito pessoal de fazer uma coisa do nosso jeito, dentro das limitações que a vida nos impõe. E gostar dessas alternativas. Descobrir o mundo criativamente, vendo opções onde antes só se viam impedimentos. E gostar dessas descobertas. Amar o seu jeito pessoal de ser, a sua criatividade e os seus sonhos.

Ou seja: a felicidade está na flexibilidade, com amor, deixando de lado aquele comportamento de criança que acha que o mundo acabou porque um brinquedo se quebrou, deixando de ver o quão divertido é consertar brinquedos quebrados e transformá-los em outros brinquedos até mais criativos e melhores.

Com flexibilidade, amor e, sobretudo, com vontade, se descobre porquê a vida nos fez especiais. E é com essa descoberta que podemos transmitir o recado que viemos dar aqui neste planeta. Porque só existe um deficiente realmente limitado: é o deficiente da vontade.

By Renato Mello.

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