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Para onde o vento nos levar

Posted in Inspiração with tags , , , , , , , , , on 07/09/2011 by Joe

– Vó?
– Oi…
– Ontem eu vi de novo aquele filme que você gosta.
– Qual, minha querida (como se não houvesse muitos filmes que a Vovó gostava)?
– Aquele, daquele homem que é meio bobo e fica contando histórias no ponto de ônibus…
– Ah, sei … Forrest Gump …
– Isso.
– E você gostou do filme?
– Gostei, mas não entendi uma coisa …
– O que?
– Quando começa o filme tem uma pena voando, que voa, voa, voa e cai no colo do Forrest Gump. Ele guarda “ela” no livro e começa a contar a história para um monte de gente …
– Exato.
– Então, no final ele abre o livro e ela sai voando outra vez. Para que serve essa pena, heim, Vovó?
– Bem, pituquinha, ele explica isso no final. Talvez você não tenha percebido.
– Acho que não.
– Forrest Gump não é uma pessoa igual às outras: ele tem uma inteligência limítrofe. Não fale que ele é meio bobo que isso é muito feio. Ele tem uma inteligência de uma criança de cinco anos, por isso tem dificuldade de entender as coisas como as outras pessoas. É um homem grande com a cabeça de uma criança, não é meio bobo ou retardado, tá bom?
– Tá.
– Você quer saber por que a pena começa o filme voando até pousar no colo do Forrest Gump, e depois sai voando de novo, não é?
– Isso.
– Então … no final do filme ele conta que na sua vida houve duas pessoas que o influenciaram muito: uma foi a sua mãe; o outro, seu amigo, que ele conheceu na guerra do Vietnã, que é o tenente Dan. A mãe ensinou para ele que ter uma deficiência não é desculpa para desistir da vida. Ela se recusou a colocá-lo em uma escola para deficientes e sempre empurrou o filho para frente, sempre ensinou-o a não se conformar com as suas próprias limitações. Forrest foi para a escola, estudou, teve um problema na coluna que o obrigou a usar aquele aparelho horrível, você se lembra?
– Lembro, sim.
– Tem uma cena que a Vovó gosta demais nesse filme, que é aquela em que os meninos correm atrás dele com bicicletas. Eles querem zoar com ele e até machucá-lo, e a sua amiguinha grita para o menino: “Corra, Forrest, corra …”. E ele sai correndo, de aparelho e tudo, as bicicletas atrás dele e os meninos gritando … e, à medida que ele corria, o aparelho vai caindo, pedaço por pedaço, e quanto mais ele se livrava do aparelho ortopédico, mais rápido ele conseguia correr, mais ele deslanchava, até conseguir chegar em casa, deixando para trás os seus perseguidores …
– Vó?
– Oi …
– Você está chorando …
– Não, não querida … é que a vovó esqueceu de pingar o colírio dela (falou isso enquanto enxugava furtivamente algumas lágrimas).
– Por que você gosta tanto dessa cena, Vovó?
– Porque Vovó acha essa cena muito emocionante, muito alegórica.
– Alê, o que?
A Vó riu-se, gostosamente.
– Alegórica. Quer dizer que ela tem um significado maior do que está na tela.
– Qual o significado?
– Na vida a gente fica tentando endireitar tudo, minha querida e, àsvezes, temos que passar muito, muito medo para podermos nos livrar de nossos aparelhos, de nossas muletas. Forrest descobre que já está pronto, que pode correr como ninguém, como ninguém, e mais longe do que qualquer menino valentão e bobo que se acha grande coisa …
Olhou para a neta, que a olhava fixamente.
– Desculpe, querida, acho que me empolguei um pouco.
– Vó?
– Oi …
– É para isso que temos medo?
– Acho que sim.
– Temos medo para tirar as muletas?
– E os aparelhos. E ir para frente.
– Legal! Vó?
– Fala …
– E a pena?
– É mesmo, já ía me esquecendo … então, eu falei que a mãe de Forrest Gump o ensinou a nunca sentar sobre seus problemas, a nunca se intimidar com as suas dificuldades. Ela ensinou para ele que, na vida, Deus dá uma série de cartas para a gente jogar o jogo, e temos que aproveitar as nossas cartas do melhor jeito possível.
– E a pena?
– Já vai, já vai … a outra pessoa importante na vida de Forrest Gump é seu amigo, o tenente Dan. Juntos eles foram para a guerra, tiveram um barco pesqueiro, montaram uma empresa e ficaram muito ricos. E o tenente Dan ensinou que, na vida, a gente é como uma peninha levada pelo vento, de um lado para outro, e nunca tem como descobrir para onde vai o sopro de Deus, nunca a gente sabe para que lado vai a pena.
Fez um silêncio grave.
– Como assim?
– Quando você crescer vai perceber como nosso destino é caprichoso, meu bem. Um dia estamos aqui, outro dia estamos lá, como se tivesse um brincalhão assoprando a vida para lá e para cá, para lá e para cá (fez um movimento com a mão, simulando a pena indo e voltando. A menina acompanhou o movimento com os olhos).
– Quer dizer que a gente não sabe para onde vai essa pena?
Trouxe-a para mais perto.
– A gente não sabe … mas sabe, quando a gente chega na idade que chegou a Vovó aqui, podemos perceber os caminhos misteriosos que a pena toma no ar, até pousar, segura, no colo de Deus. Mas isso a gente só descobre depois de passar muito tempo tentando adivinhar: qual a direção do vento? Qual a umidade relativa do ar? Qual o peso da pena? Como o caos vai comandar a direção que a pena vai tomar?
Coçou a cabeça, em seu gesto característico.
– Vó?
– Oi …
– O que acontece quando a gente para de tentar adivinhar para onde vai essa pena?
– A gente se deixa levar pelo vento, minha querida.
– Quer dizer que você dá razão para a mãe e para o amigo do Forrest?
Olhou com uma agradável sensação de surpresa.
– Isso mesmo! Como você é esperta! Eu dou, mesmo, razão para os dois. A gente joga da melhor forma que puder, com o máximo de empenho, mas também respeita as linhas do vento. Gostou?
– Gostei, gostei muito … sabe, vó, é tão bom ter você … será que um dia esse vento vai te levar para longe de mim?
Estremeceu ligeiramente.
– Não, meu bem … por mais longe que vão nossas penas, nosso coração vai estar sempre perto um do outro, tá bom?
– Tá bom.
Ficaram num silêncio de fim de conversa.
– Eu vou brincar um pouco, tá?
– Isso, vai brincar de Forrest Gump.
– Vou correr até cansar.
– Isso. Vai mesmo …

Mal conseguiu disfarçar a voz embargada de lágrimas …

By Dr. Marco A. Spinelli, médico psiquiatra e psicoterapeuta, palestrante.

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