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Rotina

Posted in Reflexão with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 02/09/2011 by Joe

– “No fundo, as pessoas reclamam, mas adoram a rotina”, eu disse.

– “Claro!”, respondeu o Mestre. “E a razão é muito simples: a rotina lhes dá a falsa sensação de que estão seguras. Assim, o dia de hoje será exatamente igual ao dia de ontem, e o amanhã não trará surpresas.

Quando a noite chega, parte da alma reclama que nada de diferente foi vivido, mas a outra parte fica contente, paradoxalmente, pela mesma razão. Evidente que esta segurança é totalmente falsa; ninguém pode controlar nada, e uma mudança aparece justamente no momento mais inesperado, pegando a pessoa sem condições de reagir ou lutar”.

– “Se somos livres para decidir que queremos uma vida igual, porque Deus nos força a mudá-la?”

– “O que é a realidade? É a maneira como a imaginamos que seja. Se muita gente ‘pensa’ que o mundo é de tal e qual maneira, as coisas à nossa volta se cristalizam, e nada muda por algum tempo. Entretanto, a vida é uma evolução constante – social, política, espiritual, seja lá em que nível for. Para que as coisas evoluam, é necessário que as pessoas mudem. Como estamos todos interligados, às vezes o Universo dá um empurrão naqueles que estão impedindo a evolução”.

– “Geralmente sob a forma de tragédia …”

– “A tragédia depende do modo como você a ve. Se escolheu ser uma vítima do mundo, qualquer coisa que lhe acontecer vai alimentar aquele lado negro de sua alma, onde você se considera injustiçado, sofredor, culpado e merecedor de castigo. Se escolher ser um aventureiro, as mudanças – mesmo as perdas inevitáveis, já que tudo neste mundo se transforma – podem causar alguma dor, mas logo vão lhe empurrar adiante, obrigando-o a reagir.

Em muitas das tradições orais, a sabedoria é representada por um templo com duas colunas na porta: estas duas colunas sempre têm nomes de coisas opostas entre si, mas para exemplificar o que quero dizer, chamaremos uma de Medo e outra de Desejo.

Quando o homem está diante desta porta, ele olha para a coluna do Medo e pensa: “Meu Deus, o que vou encontrar adiante?”. Em seguida, olha para a coluna do Desejo e pensa: “Meu Deus, já estou tão acostumado com o que tenho, desejo continuar vivendo como sempre vivi”. E fica ali parado; a isso chamamos de tédio”.

– “Então, o tédio é …”

– “O movimento que cessa. Instintivamente, sabemos que está errado e nos revoltamos. Nos queixamos com nossas esposas, maridos, filhos, vizinhos. Mas, por outro lado, sabemos que o tédio e a rotina são portos seguros”.

– “Uma pessoa pode passar a vida inteira nesta situação?”

– “Ela pode levar o empurrão da vida, mas resistir e continuar ali, sempre reclamando – e seu sofrimento foi inútil, não lhe ensinou nada. Sim, uma pessoa pode continuar o resto dos seus dias diante de uma das muitas portas que deve ultrapassar, mas ela precisa entender que só viveu mesmo até aquele ponto. Pode continuar respirando, andando, dormindo, comendo, mas cada vez com menos prazer, porque já está morta espiritualmente e não sabe.

Até que um dia, além da morte espiritual, aparece a morte física; neste momento, Deus perguntará: “o que você fez com a sua vida?”. Todos nós teremos que responder a esta pergunta …

E ai de quem disser:

– “Fiquei parado diante de uma porta …”

By Paulo Coelho, da série “Diálogos com o Mestre”.

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