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Debora fala reservadamente com todos

Posted in Livros with tags , , , , , , , , , , on 15/11/2009 by Joe

DeboraLivro: Debora Fala Reservadamente Com Todos
By Ivy Knijnik
Editora Altana

A autora revela os bastidores da história da personagem Debora, uma viciada em chat pela internet, que se vê no fundo do poço depois de “sentir-se” loucamente apaixonada pelo “vento” de DasHausVonLieb, o nick de um dos freqüentadores das salas de bate-papo.

Ivy conduz a narrativa naquela terceira pessoa onisciente, profunda conhecedora de quem é essa alma inquieta,  mas é na primeiríssima pessoa que o seu texto ganha a inquietação do leitor que, como cego, persegue avidamente as palavras sensuais de Debora (ou dos personagens do chat), ao narrar, em tempo presente como se estivéssemos em frente à tela do computador, as venturas e tantas desventuras com parceiros virtuais que, sim (e não), apresentam-se como figuras reais.

Talvez entre aqui um truque da sedução da obra: serão reais os relatos daqueles encontros amorosos? Aqueles homens saem da tela para os quartos de motéis em que se encontram com Debora? Tão irreais quanto o amante que a leva à loucura? Tão virtuais quanto os casos de Gordinha-Gostosa que se encontra com um parceiro no mundo real e é por ele violentada?

A leitura é comandada por capítulos que denunciam a escritura do chat já enunciada no título: “Debora fala reservadamente com todos”. O primeiro desses capítulos é a antecipação da narrativa cujo desfecho já aí está, mas que será conclusivo para o entendimento da leitura em seu fecho no último capítulo. De “debora fala reservadamente com debora” (capítulo 1) à “debora fala reservadamente com todos” (capítulo 18, e último), a escritora acompanha Debora pela viagem do conhecimento do ser mulher, do ser mulher judia, do ser mulher mãe judia.

Toda a obra é permeada pelo olhar dessa personagem judia. A história do povo judeu com sua rica tradição é apontada, e muitas vezes criticada também, mas jamais se descola da imagem que Debora projeta. É como um estigma, como as peças de cristal esculpidas pelo avô da personagem em idos tempos anteriores ao holocausto. Débora vai destruí-las no real, vai trabalhar com elas no imaginário da fragilidade de seu ser para recompô-las todas, no simbólico mundo re-estruturado depois dessa viagem. No momento em que Debora sublima o próprio ser. Estranhamente, quando ela se desgarra da tela mágica e sai para o mundo metaforicamente representado em sua saída do túnel do metrô.

Ela vai sentir todo o vento que lhe prometera o amante virtual DasHausVonLieb, seu algoz no forno crematório em que ela deposita sua carne sob brasa do sexo em chama. Mas ela resistiu à imensidão da história sobre seus ombros. “Estou só”, diz ela ao fim do primeiro capítulo. Com sua própria voz ela diz no último capítulo: “No próximo Shabbat, farei tzedaká (caridade) em memória da minha mãe e acenderei as velas para iluminar minha vida. Estou bem. Estou em excelente companhia…”

É Débora falando reservadamente com ninguém. Havia compreendido enfim. Débora, com acento.

By Roseli Gimenes para o site ArScentia.

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